Como é que a alimentação pode atrasar a progressão da doença renal crónica

Quando o médico pronuncia as palavras “Doença Renal Crónica” (DRC), é normal sentir que o chão desaba. Surge a incerteza e aquela pergunta inevitável: e agora?

Para além dos medicamentos e das consultas com o especialista, existe uma verdade que por vezes esquecemos: tem muito mais controlo sobre a doença do que imagina. E esse controlo começa na sua cozinha. Não se trata apenas de “comer de forma saudável”, mas de usar a alimentação como uma verdadeira aliada para proteger a sua saúde e prevenir complicações. O que decide colocar no prato, várias vezes por dia, pode aliviar o trabalho dos seus rins ou dar-lhes mais esforço do que conseguem suportar.

Os seus rins precisam de descanso

Para entender isto, não é preciso uma aula complexa de anatomia. Pense nos seus rins como um filtro de café de altíssima precisão. Trabalham sem parar a limpar o sangue e a equilibrar os líquidos do seu corpo.

Quando existe lesão renal, esse filtro já não funciona a 100%. Se lhe fornecemos alimentos cheios de toxinas ou muito difíceis de processar, obrigamos as partes do rim que ainda funcionam a trabalhar horas extra. Em medicina, chama-se a isto hiperfiltração. No início o corpo aguenta, mas com o tempo esse esforço adicional acaba por acelerar o dano renal.

Os 4 pilares: adaptações na sua alimentação, não proibições totais

Esqueça a ideia antiga da “dieta renal” sem sabor, aborrecida e igual para todas as pessoas. Cada fase da doença renal crónica é diferente. Ainda assim, há quatro elementos que devem ser sempre vigiados de perto.

1. Proteínas: melhor vegetal do que animal

Para não sobrecarregar o rim, é importante reduzir a ingestão de proteínas, mas não eliminá-las totalmente, pois o seu corpo precisa delas para manter a massa muscular. O segredo está na quantidade certa para cada pessoa e na qualidade da proteína.

Proteína animal: quando consome um bife muito grande, o seu corpo produz muitos resíduos (como a ureia) que o rim tem de filtrar, o que acaba por sobrecarregá-lo.

Proteína vegetal: as proteínas presentes nas leguminosas ou nos frutos secos são mais “amigas” dos rins, pois geram menos toxinas.

2. Sódio: muito para além do saleiro

A tensão arterial elevada é a inimiga número um do rim, e o sódio é o seu principal combustível. Mas atenção: o problema não está apenas no sal que acrescenta ao cozinhar. A verdadeira batalha está também no sódio escondido nos alimentos:

  • Comida processada e embalada
  • Enchidos e fumados
  • Snacks e aperitivos salgados
  • Caldos de carne, peixe ou legumes embalados
  • Queijos
  • Azeitonas
  • Bolachas com sal
  • Molhos embalados e alimentos pré-cozinhados
  • Pickles

3. Fósforo: cuidado com os aditivos

À medida que a doença renal crónica avança, o rim tem dificuldade em eliminar o fósforo. Quando este se acumula, pode enfraquecer os ossos e danificar as artérias. Por isso, é fundamental distinguir a origem do fósforo.

O fósforo orgânico, naturalmente presente nos alimentos, pode ter origem animal ou vegetal. O fósforo presente em alimentos de origem vegetal, como frutos secos e leguminosas, não é absorvido na totalidade e, por isso, é menos preocupante.

Por outro lado, o fósforo inorgânico, que é adicionado aos alimentos e está presente em refrigerantes, fiambre e outros processados de carne, queijos fundidos e produtos de pastelaria industrial, é absorvido quase a 100% e é muito prejudicial para quem tem doença renal.

4. Potássio: sem medo, mas com respeito

O potássio é vital para o coração, mas em excesso pode ser perigoso se os rins não filtrarem corretamente. Nem todas as pessoas precisam de o restringir; isso depende das análises clínicas e do estádio da doença.

Se for necessário controlá-lo, estas técnicas podem ajudar:

  • Demolhar as leguminosas
  • Dupla cozedura das batatas e dos legumes

Procure ajuda à sua medida

A doença renal crónica é uma viagem longa, onde a paisagem vai mudando. O que come numa fase inicial pode não ser adequado se estiver próximo de iniciar diálise (doença renal crónica terminal).

Cada pessoa é única. Os seus níveis de potássio, de fósforo, o seu peso e os seus gostos alimentares são diferentes. Por isso, contar com acompanhamento especializado focado na alimentação adequada para a saúde renal é um verdadeiro investimento.

Um bom profissional irá preparar um plano alimentar personalizado, para que a sua alimentação se adapte à sua vida — e não o contrário.

Uma reflexão final

Ter doença renal crónica não é uma sentença imutável. É verdade que existem fatores que não podemos mudar, mas aquilo que coloca no prato depende cem por cento de si.

Ao escolher alimentos frescos, está a oferecer mais tempo e mais saúde aos seus rins. Comer bem não significa renunciar ao prazer; significa aprender a escolher os alimentos de forma inteligente para continuar a desfrutar da vida com a melhor qualidade possível.