Obesidade e rim: o desafio de perder peso sem prejudicar a saúde renal

Quando pensamos nos perigos da obesidade, a mente vai quase automaticamente para o mesmo sítio: o coração ou o açúcar no sangue. No entanto, muitas vezes ignoramos uma realidade silenciosa: o excesso de peso é um dos inimigos mais agressivos dos nossos rins.

Se tem excesso de peso e os seus rins já não funcionam a 100%, é importante controlar o seu peso de forma a voltar a ter um peso saudável. Mas atenção. Fazer isso da forma errada pode acelerar a lesão renal em vez de  travar a doença.

O que acontece realmente ao rim com o excesso de peso?

Para perceber o risco, é preciso olhar para a mecânica. Os rins não são indiferentes ao peso do resto do corpo. Adaptam-se, sim, mas a um custo muito elevado.

O motor forçado (hiperfiltração)

Pense nisto desta forma: os seus rins são filtros. Se a sua massa corporal aumenta, aumenta também o volume de sangue que precisa de ser filtrado e as exigências metabólicas a satisfazer. Os rins são obrigados a trabalhar em esforço. A isto chama-se hiperfiltração glomerular.

É como colocar o motor de um carro a puxar um camião carregado. No início pode aguentar, mas com o tempo as peças desgastam-se pelo esforço. Essa pressão interna acaba por danificar as unidades funcionas do rim (glomérulos) de forma irreversível.

A gordura não é apenas um “armazém”

Durante anos pensou-se que o tecido adiposo era apenas um depósito de energia inerte. Nada mais longe da realidade. Especialmente a gordura visceral — a que se acumula na barriga e à volta dos órgãos — atua como uma glândula ativa. Liberta constantemente substâncias inflamatórias que atacam diretamente as células renais. Mesmo que não seja diabético nem hipertenso, essa inflamação crónica de baixo grau vai afetando o rim pouco a pouco.

Estratégias seguras: emagrecer sem destruir o filtro

O dilema clínico é real: é preciso perder peso para reduzir a hiperfiltração, mas alguma estratégias podem ser nefrotóxicas (tóxicas para o rim). É aqui que tudo muda.

1. Cuidado com as “dietas milagrosas” e as proteínas

No ginásio ou nas redes sociais vai ver que as dietas ricas em proteína são seguidas para perder peso rapidamente. Para um doente renal, este tipo de abordagem pode ser muito perigosa e fazer com que a doença avance rapidamente.

O rim é o responsável por eliminar os resíduos originados pela digestão das proteínas (como a ureia). Se aumentar drasticamente a ingestão de proteína, aumenta a pressão dentro do rim.

2. Défice calórico, mas sem perder músculo

Para perder peso, é preciso consumir menos calorias, sim. Mas se a restrição for demasiado agressiva, o seu corpo vai começar a utilizar o próprio músculo para obter energía e perder massa muscular é das piores coisas que pode acontecer a um doente renal. O objetivo é perder gordura, não enfraquecer. A perda de peso deve ser lenta. Aqui, a paciência é saúde.

3. A armadilha do “light” e do sódio

A maioria dos produtos processados com baixo teor calórico compensa a falta de sabor com duas coisas: sódio e aditivos. Ambos são perjudiciais para um rim vulnerável.

O controlo da pressão arterial é fundamental, e começa pelo sal. A melhor estratégia é voltar à cozinha simples: alimentos frescos, e preparados em casa com especiarias em vez do sal. Experimente a salicornia como alternativa ao sal, é uma planta halófita que cresce em Portugal nas zonas de ria e sapal e que tem sódio na sua composição mas em quantidade muitíssimo inferior à quantidade de sódio contida no sal.

O movimento como medicamento

O sedentarismo é aliado da doença renal pelo que mexer o corpo não será opcional. Não precisa correr maratonas; de facto, o exercício deve ser prescrito na dose e tipo adequados para si, pelo que deve procurar um profissional habilitado para o efeito. O exercício físico vai ajudar o músculo a consumir glucose e a baixar a pressão arterial, aliviando a carga sobre os rins.

Um caminho que não deve percorrer sozinho

A nutrição renal pode ser complexa. A alimentação adequada para o seu conhecido ou conhecida pode ser prejudicial para si. Por isso, contar com serviços especializados de nutrição é uma necessidade para garantir que o esforço de mudar a sua alimentação se traduza realmente em anos de vida.