Como ler a tua análise renal completa: creatinina, TFG, ureia e potássio explicados

Por Cristina Garagarza, nutricionista clínica especializada em nutrição renal, doutorada em Nutrição pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Recebeste os resultados de uma análise de sangue e a folha está cheia de siglas que parecem um código secreto? Creat, TFG, Ur, K+… e ninguém te explicou o que significam quando aparecem todas juntas. Não estás só. É uma das perguntas que mais ouço em consulta: «sei que a creatinina está alta, mas o resto da folha, o que quer dizer?»

Como nutricionista especializada em saúde renal, o meu trabalho começa exatamente aqui, a traduzir números em informação útil. Vamos por partes.

Porque é que a tua análise parece um código

Um relatório de análises não foi pensado para ser lido por um paciente, foi pensado para ser lido por um médico com o teu histórico à frente. Por isso, quatro valores aparecem quase sempre juntos quando se avalia a função renal.

Creatinina (Creat): o resíduo muscular que os rins filtram. TFG ou eGFR: a taxa de filtração glomerular, calculada a partir da creatinina, idade e sexo. Ureia (Ur ou BUN): outro resíduo, mas de origem diferente, como vais ver a seguir. Potássio (K+): um mineral que os rins regulam com precisão milimétrica.

Já falei em detalhe sobre a relação entre creatinina e TFG neste artigo, por isso aqui vamos focar-nos no que fica muitas vezes de fora, a ureia e o potássio, e sobretudo, em como ler os quatro valores como um conjunto, não como números isolados.

Ureia, o parceiro da creatinina que quase ninguém explica

A ureia nasce de forma diferente da creatinina. Enquanto a creatinina vem do desgaste muscular, a ureia é o resultado final da quebra das proteínas que comes, um processo que passa primeiro pelo fígado antes de chegar aos rins para ser filtrada.

Isto tem uma consequência prática importante, a ureia sobe e desce com muito mais facilidade do que a creatinina. Uma refeição rica em proteína, um episódio de desidratação ou febre podem elevar a ureia sem que exista qualquer alteração real na função renal.

É por isso que os médicos olham para a relação entre ureia e creatinina, não para a ureia isolada. De forma simplificada, ureia alta com creatinina normal aponta muitas vezes para causas fora do rim, como desidratação, dieta rica em proteína ou hemorragia digestiva. Ureia e creatinina altas em conjunto é o padrão mais associado a doença renal instalada. Creatinina alta com ureia desproporcionalmente baixa pode acontecer em quem segue uma dieta muito pobre em proteína ou tem desnutrição.

Nenhum destes cenários se confirma com um único valor. É sempre o conjunto, e a evolução ao longo de várias análises, que conta a história real.

Potássio, o mineral que exige atenção imediata

Se há um valor na tua análise que nunca deves ignorar, é o potássio. Ao contrário da creatinina, que sobe e desce de forma gradual, o potássio pode alterar-se rapidamente e ter consequências sérias no ritmo do coração.

Os rins são responsáveis por eliminar o excesso de potássio pela urina. Quando a função renal diminui, essa capacidade de eliminação também diminui, e o potássio pode acumular-se no sangue, uma situação chamada hipercaliemia.

Os valores de referência costumam situar-se entre 3,5 e 5,0 mEq/L, mas o número sozinho não te diz se deves preocupar-te. O que importa é a velocidade da subida, os sintomas associados e a causa provável.

Um potássio que sobe de forma súbita é mais preocupante do que um valor cronicamente elevado e estável, que o corpo já compensou. Fraqueza muscular, formigueiro ou alterações no batimento cardíaco exigem avaliação imediata, independentemente do valor exato. E vale lembrar que medicamentos como alguns anti-hipertensores, suplementos de potássio ou até uma amostra de sangue mal processada no laboratório podem dar um valor falsamente elevado.

Por isso, um potássio alterado isolado, sem sintomas e sem outros valores renais afetados, merece confirmação antes de gerar alarme, mas nunca deve ser ignorado.

Como ler os quatro valores em conjunto

Vamos a um exemplo prático. Imagina que a tua folha de análises mostra isto, creatinina 1,4 mg/dL, TFG 55, ureia 68 mg/dL, potássio 5,2 mEq/L.

Isolados, estes números até podem parecer moderados. Em conjunto, contam outra história, uma TFG de 55 já indica uma diminuição real da função renal (estádio 3a), a ureia elevada sugere que essa diminuição já tem impacto na eliminação de resíduos, e o potássio no limite superior confirma que os rins estão com dificuldade em manter o equilíbrio de minerais.

É este exercício, ler os quatro valores como peças do mesmo puzzle, que separa uma análise preocupante de uma variação sem importância. E é exatamente o trabalho que faço com cada pessoa que chega à consulta com uma folha de análises debaixo do braço e mais perguntas do que respostas.

Quando deves procurar ajuda com mais urgência

Nem todas as alterações têm o mesmo grau de urgência. Procura avaliação médica ou nutricional sem esperar se o potássio está acima de 5,5 mEq/L, especialmente se sentires palpitações ou fraqueza muscular, se a TFG está abaixo de 30, independentemente de teres ou não sintomas, se os valores de creatinina e ureia sobem em conjunto de forma consistente em análises repetidas, ou se aparecem sintomas como inchaço nas pernas, urina com espuma ou cansaço fora do habitual.

Fora destes cenários, o mais sensato é repetir a análise, idealmente bem hidratado e sem exercício físico intenso nas 48 horas anteriores, e discutir os resultados com o teu médico ou nutricionista.

Perguntas frequentes

A ureia alta significa sempre problema nos rins? Não. A ureia é muito sensível à alimentação e à hidratação, por isso sobe com facilidade sem que exista doença renal. O contexto, e a creatinina em paralelo, é que confirma ou descarta essa hipótese.

Posso ter a creatinina normal e ainda assim ter um problema renal? Sim, sobretudo em fases iniciais ou em pessoas com pouca massa muscular, onde a creatinina demora mais a refletir a perda de função. É uma das razões pelas quais a TFG é mais fiável do que a creatinina isolada.

Tenho de repetir a análise se o potássio sair alterado? Geralmente sim. Uma amostra de sangue mal processada é uma causa frequente de potássio falsamente elevado, mas isso só se confirma com uma segunda análise, nunca assumindo por conta própria que deve ser erro.

A alimentação pode alterar estes valores antes da análise? Sim, e bastante. Uma refeição rica em carne na noite anterior pode elevar a ureia e ligeiramente a creatinina. Se fazes análises com regularidade, mantê-las em condições parecidas (hidratação, sem exercício intenso, jejum se indicado) ajuda a comparar valores de forma mais fiável ao longo do tempo.

Se tens uma folha de análises à tua frente e não sabes bem o que fazer com ela, não precisas de decifrá-la sozinho. Podes usar a calculadora de TFG disponível no site para teres uma primeira orientação, ou agendar uma chamada gratuita de 15 minutos para levarmos os teus valores, em conjunto, além dos números isolados.

Cristina Garagarza · Nutricionista especialista em nutrição renal · Nº 0067N

Este artigo tem carácter exclusivamente informativo e não substitui a consulta médica ou de nutrição clínica. Qualquer alteração na dieta ou no programa de exercício deve ser discutida com a equipa de saúde responsável pelo seu acompanhamento clínico.