Exercício físico e doença renal crónica: o que a evidência diz e como adaptar a actividade à sua condição

Por Cristina Garagarza, nutricionista clínica especializada em nutrição renal, doutorada em Nutrição pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Quando se recebe um diagnóstico de doença renal crónica, uma das primeiras perguntas que surgem é o que se pode e o que não se deve fazer. E o exercício físico é frequentemente colocado no lado errado dessa equação. Muitas pessoas com DRC reduzem espontaneamente a actividade física por medo de sobrecarregar os rins, ou porque ninguém lhes explicou se podem ou não continuar a fazer o que faziam.

A evidência científica é clara neste ponto, e convém que chegue a quem precisa de a ouvir: o exercício físico regular é, na maioria dos casos, benéfico para as pessoas com doença renal crónica. Não apenas para a qualidade de vida em geral, mas especificamente para a progressão da própria doença renal. O sedentarismo, pelo contrário, é um factor de risco independente para o agravamento da DRC e para as complicações cardiovasculares que lhe estão associadas.

O que diz a evidência científica

A investigação sobre exercício físico e DRC tem crescido de forma consistente nos últimos anos. As diretrizes KDIGO de 2024, que constituem a referência internacional para a gestão da doença renal crónica, incluem recomendações explícitas sobre actividade física, reflectindo o peso acumulado da evidência nesta área.

Os estudos observacionais mostram que doentes com DRC que mantêm níveis adequados de actividade física têm menor risco de progressão para estadios mais avançados da doença, menor mortalidade cardiovascular e melhor qualidade de vida do que os seus pares sedentários. Os ensaios clínicos controlados demonstram melhorias na capacidade funcional, no controlo da pressão arterial, nos perfis lipídicos e no estado inflamatório com programas de exercício estruturado.

Um aspecto importante que a evidência também documenta é que os doentes renais têm, em média, uma capacidade funcional significativamente inferior à da população geral. Esta diferença não é apenas consequência da doença em si, mas em grande parte do sedentarismo que frequentemente acompanha o diagnóstico. Isto significa que há margem real de melhoria para a maior parte dos doentes com DRC que actualmente não são fisicamente activos.

Os benefícios do exercício para os doentes renais

Os benefícios do exercício regular na DRC actuam em várias frentes simultaneamente, o que o torna uma das intervenções não farmacológicas com melhor relação benefício-risco disponível.

O controlo da pressão arterial é um dos benefícios mais relevantes. O exercício aeróbio regular tem um efeito hipotensor documentado, o que é particularmente importante numa condição em que a hipertensão é tanto causa como consequência da lesão renal. A melhoria do controlo tensional através do exercício complementa e pode mesmo reduzir a necessidade de ajustes farmacológicos, embora qualquer decisão nesse sentido deva sempre envolver o médico assistente.

O metabolismo da glicose melhora com a actividade física regular, o que é relevante para os muitos doentes renais que têm simultaneamente diabetes ou pré-diabetes. A sensibilidade à insulina aumenta, o controlo glicémico melhora e o risco cardiovascular associado à hiperglicemia diminui.

A massa muscular tende a diminuir na DRC, um fenómeno chamado sarcopenia que é particularmente frequente em doentes em estadios avançados e em hemodiálise. O exercício de resistência, também chamado exercício de força, é a intervenção mais eficaz para preservar e recuperar massa muscular, o que tem implicações directas na qualidade de vida, na mobilidade e na capacidade funcional.

O estado inflamatório crónico que acompanha a DRC é atenuado pelo exercício regular, com reduções documentadas em marcadores como a proteína C reactiva. Esta melhoria do perfil inflamatório pode contribuir para abrandar a progressão da doença.

E não menos importante, a qualidade de vida melhora de forma subjectivamente significativa para a maioria dos doentes que mantêm ou retomam a actividade física. A fadiga, que é um dos sintomas mais limitantes na DRC, diminui com o exercício regular, ao contrário do que muitos doentes temem.

Que tipo de exercício é mais indicado e como adaptar a intensidade

Não existe um único tipo de exercício ideal para todos os doentes com DRC. A escolha e a intensidade devem ser adaptadas ao estadio da doença, à capacidade funcional actual e às comorbilidades presentes. Dito isto, há orientações gerais que a evidência suporta.

O exercício aeróbio de intensidade moderada é o tipo com maior base de evidência para os benefícios cardiovasculares e metabólicos na DRC. Caminhar, nadar, andar de bicicleta ou realizar aquagym são exemplos de actividades que produzem os efeitos benéficos documentados sem impor uma sobrecarga excessiva. A recomendação habitual é a de acumular pelo menos 150 minutos de actividade aeróbia de intensidade moderada por semana, distribuídos por sessões de duração variável, mas este valor é uma referência geral que precisa de ser adaptada ao ponto de partida de cada pessoa.

O exercício de resistência, com pesos ou bandas elásticas, é especialmente relevante para preservar a massa muscular. Pode ser incorporado na rotina de forma progressiva, começando com cargas baixas e aumentando à medida que a capacidade o permite. É particularmente importante em doentes em hemodiálise, onde a perda muscular é mais acentuada e onde programas de exercício intra-diálise têm mostrado resultados positivos.

A intensidade é um factor crítico. A percepção de esforço deve ser moderada: o doente deve ser capaz de manter uma conversa durante a actividade, sem estar completamente sem fôlego. O inicio de qualquer programa de exercício deve ser gradual, respeitando o nível de condição física actual, que muitas vezes é bastante baixo em doentes com DRC não habituados à actividade física.

O aquecimento e o arrefecimento progressivo são mais importantes em doentes renais do que na população geral, pela instabilidade hemodinâmica que pode acompanhar a doença, especialmente em estadios avançados.

A relação entre exercício e necessidades proteicas na DRC

Este é um ponto em que a complexidade da nutrição renal se torna evidente, e onde a orientação especializada faz verdadeiramente a diferença.

Na população geral, o exercício de resistência para ganhar ou preservar massa muscular é habitualmente acompanhado de um aumento na ingestão proteica. Mas na DRC, especialmente nos estadios mais avançados sem diálise, o excesso de proteína acelera a progressão da doença renal através do aumento da carga de ureia que os rins têm de filtrar.

Isto cria uma tensão real: o exercício de resistência aumenta as necessidades proteicas para a síntese e manutenção muscular, mas a doença renal limita a quantidade de proteína que pode ser consumida com segurança. A resolução desta tensão não tem uma resposta única. Depende do estadio da DRC, dos valores analíticos actuais, do tipo e intensidade do exercício praticado e do estado nutricional da pessoa.

Em doentes em hemodiálise, a situação inverte-se: as necessidades proteicas são mais elevadas do que na fase pré-diálise porque o próprio processo dialítico causa perdas proteicas. Nesse contexto, o exercício de resistência e a ingestão proteica adequada trabalham na mesma direcção.

Ajustar a alimentação ao exercício em doentes com DRC é, portanto, uma tarefa que exige avaliação individualizada. Não existe uma fórmula genérica que funcione para todos.

Quando o exercício deve ser limitado ou adaptado

Apesar dos benefícios generalizados, há situações em que a actividade física deve ser cuidadosamente avaliada antes de ser iniciada ou aumentada.

Doentes com hipertensão arterial não controlada devem aguardar a estabilização da pressão arterial antes de iniciar um programa de exercício intenso. Valores muito elevados de pressão durante o esforço podem ser perigosos.

Após uma cirurgia recente, nomeadamente um transplante renal, existe um período de recuperação em que o tipo e a intensidade da actividade física são limitados e devem seguir as orientações da equipa médica.

Doentes com anemia significativa, que é frequente na DRC avançada, podem sentir intolerância ao exercício que deve ser reconhecida e abordada antes de progredir na intensidade.

E doentes com instabilidade hemodinâmica, especialmente durante ou imediatamente após sessões de hemodiálise, devem seguir orientações específicas sobre quando retomar a actividade.

Em nenhum destes casos o exercício está permanentemente contra-indicado, mas a abordagem precisa de ser adaptada à situação clínica de cada momento.

Antes de iniciar ou alterar de forma significativa o nível de actividade física, qualquer doente com DRC deve discutir esse passo com a sua equipa de saúde. E para perceber como ajustar a alimentação ao exercício que pratica ou quer praticar, pode marcar uma consulta de nutrição renal online em cristinagaragarza.com.

Cristina Garagarza · Nutricionista especialista em nutrição renal · Nº 0067N

Este artigo tem carácter exclusivamente informativo e não substitui a consulta médica ou de nutrição clínica. Qualquer alteração na dieta ou no programa de exercício deve ser discutida com a equipa de saúde responsável pelo seu acompanhamento clínico.