Recebeu os resultados das suas análises ao sangue e a palavra creatinina aparece com um valor superior ao normal? Antes de entrar em pânico e assumir o pior, pare e leia. Sim, a creatinina é o principal indicador da saúde dos seus rins, mas os números isolados não contam a história toda.
Como nutricionista especializada em saúde renal, vejo este cenário diariamente. Vamos desmistificar o que este marcador nos diz, porque é que subiu e, o mais importante, como é que a sua alimentação pode ser a chave para proteger os seus rins.
O que é a creatinina e de onde vem?
De forma simples, a creatinina é um «resíduo» biológico. Ela resulta do metabolismo da creatina, uma substância que os nossos músculos utilizam para produzir energia.
Imagine os seus rins como um filtro de café. O sangue passa por eles, os rins filtram o que é lixo (como a creatinina) e mandam-no para a urina. Se os rins estiverem a funcionar bem, os níveis de creatinina no sangue mantêm-se baixos e estáveis. Se o «filtro» começa a falhar ou se houver uma produção excessiva de resíduos, a creatinina acumula-se no sangue. É aí que o valor sobe nas análises.
O que os valores normais e alterados realmente indicam
Embora cada laboratório possa ter variações ligeiras, a creatinina sérica nos valores normais costuma situar-se entre:
Homens: 0.7 a 1.3 mg/dL Mulheres: 0.6 a 1.1 mg/dL
Atenção: Um homem com muita massa muscular (um atleta, por exemplo) pode ter uma creatinina de 1.4 mg/dL sem ter qualquer doença renal. Por outro lado, uma idosa muito magra com uma creatinina de 1.0 mg/dL pode já ter uma perda de função renal significativa. O valor isolado é relativo; o contexto é tudo.
Creatinina e TFG: a relação que precisa de conhecer
Se quer saber como estão realmente os seus rins, não olhe apenas para a creatinina. Olhe para a Taxa de Filtração Glomerular (TFG) ou eGFR.
A TFG é um cálculo que os médicos fazem (utilizando fórmulas como a CKD-EPI) que cruza o valor da sua creatinina com a sua idade, género e etnia.
TFG acima de 90: Função normal. TFG abaixo de 60: Alerta para possível Doença Renal Crónica (se mantido por mais de 3 meses).
A creatinina é o ingrediente, mas a TFG é a receita que nos diz a verdade sobre a sua saúde renal.
Causas de creatinina alta: nem sempre é doença renal crónica
Antes de assumir que os seus rins estão a falhar, considere estes fatores que podem «falsear» ou elevar temporariamente a creatinina:
Desidratação: Se não bebeu água suficiente antes das análises, o sangue fica mais concentrado. Consumo excessivo de carne vermelha: Comer um bife grande na noite anterior ao exame pode elevar os níveis. Exercício físico intenso: Treinos de força pesados aumentam a degradação muscular e, logo, a creatinina. Suplementação com Creatina: Muito comum em ginásios, eleva diretamente o valor nas análises. Medicamentos: Alguns anti-inflamatórios (como o ibuprofeno) ou antibióticos podem afetar temporariamente a função renal.
O que a alimentação pode (e não pode) fazer pelos seus valores de creatinina
Esta é a pergunta de um milhão de euros: creatinina alta, o que comer? E, mais importante, como baixar a creatinina com alimentação?
Primeiro, um choque de realidade: se houver lesão renal estabelecida, a alimentação não «cura» o rim, mas poupa-o. O objetivo é reduzir a carga de trabalho dos rins para que a creatinina não continue a subir.
Controlo Proteico: Não se trata de cortar as proteínas, mas de ajustar a quantidade e qualidade. Priorizamos proteínas que geram menos resíduos nitrogenados. Hidratação com critério: Beber água é fundamental para ajudar os rins a filtrar, mas se já houver retenção de líquidos severa, o volume deve ser controlado por um profissional. Redução de Sódio: O sal é o inimigo número um da pressão arterial, e a hipertensão destrói os pequenos vasos dos rins (glomérulos). Cuidado com o Fósforo e Potássio: Só se ajustam se as análises mostrarem alteração, mas evitar ultraprocessados é uma regra de ouro para todos.
Quando deve procurar ajuda especializada?
Se a sua creatinina está alta e não é atleta, não tomou suplementos nem estava desidratado, precisa de uma investigação profunda.
Não espere por sintomas como cansaço extremo, urina com espuma ou pés inchados. A doença renal é silenciosa. Um acompanhamento conjunto entre Nefrologia e Nutrição Renal é o «gold standard» para travar a progressão da doença.
Precisa de ajuda para interpretar as suas análises ou quer um plano alimentar que proteja os seus rins? Na minha consulta, transformamos números em comida de verdade e saúde. [Agende a sua consulta aqui].

Nutricionista renal · Ordem dos Nutricionistas n.º 0067N
Doutorada em Nutrição Renal pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, com mais de 17 anos de experiência clínica em nefrologia. Professora convidada na FMUL e na Egas Moniz School of Health & Science.
