Potássio alto ou potássio baixo

Por Cristina Garagarza, nutricionista clínica especializada em nutrição renal, doutorada em Nutrição pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Quando um resultado laboratorial evidencia um valor de potássio fora do intervalo de referência, é comum surgir alguma apreensão. Este mineral desempenha um papel essencial nos batimentos cardíacos, na resposta muscular e na transmissão dos impulsos nervosos, pelo que alterações nos seus níveis séricos têm implicações fisiológicas relevantes. Compreender o significado clínico da hipercaliemia (potássio alto) ou da hipocaliemia (potássio baixo), bem como os mecanismos que lhes estão subjacentes, permite interpretar o resultado com maior tranquilidade e definir, em conjunto com a equipa médica.

O papel do potássio no organismo

O potássio é um eletrólito que participa na transmissão dos impulsos nervosos, na contração muscular e, sobretudo, em manter o coração a bater com um ritmo estável. Os rins têm um papel fundamental na gestão de potássio pois são os responsáveis por filtrar o excesso de potássio no sangue, eliminando o excesso através da urina.

Valores de referência, e porque a margem é tão estreita

Nas análises laboratoriais, o potássio é medido em miliequivalentes por litro, mEq/L. O intervalo que costumamos considerar normal para uma pessoa com doença renal situa-se entre 3,5 e 5,5 mEq/L.

Potássio alto: a hipercaliemia

Falamos de hipercaliemia, quando o potássio ultrapassa os 5,5 mEq/L. As causas mais habituais são:

  • Função renal diminuída, já que são os rins os responsáveis por eliminar o potássio em excesso.
  • Uso de determinados medicamentos, como diuréticos poupadores de potássio, anti-inflamatórios não esteroides ou alguns fármacos para a tensão arterial.
  • Aporte elevado de potássio, seja pela alimentação, seja por suplementos, sobretudo quando o rim já tem dificuldade em filtrá-lo.
  • Desidratação significativa.

É importante saber que a hiperpotassemia pode não apresentar sinais claros. Quando estes aparecem, costumam associar-se a fraqueza muscular, formigueiro ou alterações no ritmo cardíaco. É por isso que o acompanhamento periódico das análises clínicas é tão importante quando falamos de pessoas que já vivem com doença renal.

Potássio baixo: a hipocaliemia

No extremo oposto está a hipocaliemia, definida como um potássio abaixo de 3,5 mEq/L. Entre as suas causas principais estão:

  • Perdas de líquidos por vómitos, diarreia prolongada ou sudorese abundante.
  • Tratamento com diuréticos que favorecem a eliminação de potássio pela urina.
  • Aporte insuficiente na alimentação, algo pouco frequente quando se come de forma variada.

Os sintomas mais frequentes são cãibras, cansaço, fraqueza muscular e alterações no ritmo cardíaco.

O rim como regulador central do potássio

Os rins desempenham um papel determinante na manutenção do equilíbrio do potássio pois regulam, de forma contínua, a quantidade de potássio que é retida e a que é excretada, ajustando-se às necessidades fisiológicas do organismo em cada momento. Quando essa função se encontra comprometida, como ocorre na doença renal crónica, a capacidade de regulação diminui e o potássio tende a acumular-se com maior facilidade. Esta é, em grande medida, a razão pela qual este parâmetro é monitorizado de forma tão próxima nas consultas de doentes com patologia renal.

Recomendações consoante cada situação

Se tiver o potássio elevado, especialmente se a função renal estiver reduzida, é importante controlar tanto os alimentos que escolhe como a forma como são cozinhados. Recorrer à técnica da dupla cozedura dos legumes e batata também chamado de tratamento de espoliação do potássio, reduz de forma significativa o seu teor em potássio, sem ser preciso retirá-los da sua alimentação.

Quando acontece o contrário, e os níveis de potássio estão abaixo do esperado, costuma recomendar-se introdução gradual de alimentos que o forneçam naturalmente, após verificar se existe alguma causa subjacente que deva ser corrigida primeiro.

É fundamental ter em conta que todos estes ajustes na alimentação devem ser individualizados pois o que funciona para uma pessoa com rins saudáveis não tem de funcionar da mesma forma para pessoas com lesão renal. Se os seus níveis de potássio saíram do intervalo de referência, deve procurar um profissional de saúde capaz de analisar a sua situação.

Cristina Garagarza · Nutricionista especialista em nutrição renal · Nº 0067N

Este artigo tem carácter exclusivamente informativo e não substitui a consulta médica ou de nutrição clínica. Qualquer alteração na dieta ou no programa de exercício deve ser discutida com a equipa de saúde responsável pelo seu acompanhamento clínico.