Por Cristina Garagarza, nutricionista clínica especializada em nutrição renal, doutorada em Nutrição pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Ao receber um relatório de análises clínicas em que a taxa de filtração glomerular aparece abaixo dos valores de referência pode gerar dúvidas e alguma preocupação. Por outro lado, é também uma boa oportunidade para perceber o que é que este valor realmente indica e que passos fazem sentido dar para avaliação e monitorização futura.
O que mede a taxa de filtração glomerular
A taxa de filtração glomerular (TFG) indica a quantidade de sangue que os rins conseguem filtrar a cada minuto através dos glomérulos, as estruturas responsáveis por eliminar os resíduos e o excesso de água do organismo. O resultado é ajustado à superfície corporal de cada pessoa, o que permite comparar o valor entre doentes de diferentes idades e constituições físicas. Um valor igual ou superior a 90 mililitros por minuto é considerado dentro da normalidade.
Como se interpretam os valores da TFG
Uma diminuição isolada, por si só, não representa um diagnóstico. Um valor de TFG entre 60 e 89 ml/min/1,73m², especialmente em idosos, pode refletir o envelhecimento natural do rim e não necessariamente uma doença. No entanto, um valor abaixo de 60 ml/min/1,73m², se se mantiver em análises sucessivas, é considerado indicativo de doença renal. Valores inferiores a 30 ml/min/1,73m² indicam uma alteração grave e, abaixo de 15 ml/min/1,73m², a função renal já não é suficiente para manter o equilíbrio do organismo, sendo necessário considerar a diálise ou o transplante. A confirmação do diagnóstico exige a repetição do exame ao longo do tempo e a sua avaliação em conjunto com outros parâmetros, como a presença de proteínas na urina.
Por que motivo a doença renal pode passar despercebida
Um dos aspetos mais importantes a ter presente é que a função renal pode deteriorar-se de forma silenciosa. Nas fases iniciais da doença é habitual não haver qualquer sintoma. Mas à medida que a doença renal avança podem surgir manifestações como fadiga persistente, alterações na frequência urinária ou espuma na urina, inchaço nos tornozelos ou pernas, cãibras musculares ou perda de apetite. Por este motivo, realizar análises clínicas de forma periódica é importante, mesmo na ausência de queixas.
As causas mais frequentes de uma descida da TFG
A hipertensão arterial e a diabetes são as causas mais comuns de deterioração da função renal, uma vez que danificam progressivamente os pequenos vasos sanguíneos dos rins. Também podem influenciar doenças autoimunes, como o lúpus ou nefropatia IgA, determinadas infeções e alterações estruturais, como os rins poliquísticos. É importante referir, além disso, que a creatinina, habitualmente utilizada para estimar a TFG, é influenciada pela massa muscular de cada pessoa. Isto significa que, em desportistas com grande massa muscular ou em idosos com menor massa muscular, o valor calculado pode não refletir com exatidão a função renal real, daí a importância de uma avaliação clínica individualizada.
A relação entre a função renal e a saúde cardiovascular
A evidência científica disponível mostra que, à medida que a TFG diminui, o risco cardiovascular aumenta. Os rins e o coração partilham o mesmo sistema circulatório, e a deterioração de um destes órgãos produz repercussões no outro. Por este motivo, a preservação da função renal integra-se nos cuidados cardiovasculares, sendo essencial que ambos os objetivos sejam abordados de forma conjunta.
O que se pode fazer para proteger a função renal
Em muitos casos, especialmente nas fases iniciais da doença, existe uma margem efetiva de intervenção. O controlo da pressão arterial, a gestão adequada da glicemia, a manutenção de um peso adequado, uma hidratação correta e ajustada à função renal e a moderação do consumo de sódio assim como o ajuste da ingestão de proteína consoante a fase da doença são medidas com impacto comprovado. A alimentação desempenha um papel fundamental: o aporte de potássio, fósforo, proteínas e líquidos deve ser adaptado à fase específica da doença renal, uma vez que o que é adequado numa fase inicial pode não o ser numa fase mais avançada. Por este motivo, as orientações nutricionais genéricas não substituem uma avaliação individualizada.
Se as suas análises clínicas revelarem uma TFG abaixo de 90 ml/min/1,73m², é importante falar com o seu médico para contextualizar o resultado e contar com o acompanhamento de um profissional especializado em nutrição renal que possa elaborar um plano alimentar adaptado a cada situação particular. Os rins trabalham de forma constante e silenciosa ao longo de toda a vida. Prestar atenção a estes indicadores de forma atempada constitui uma das medidas mais eficazes para promover a saúde a longo prazo.
Cristina Garagarza · Nutricionista especialista em nutrição renal · Nº 0067N
Este artigo tem carácter exclusivamente informativo e não substitui a consulta médica ou de nutrição clínica. Qualquer alteração na dieta ou no programa de exercício deve ser discutida com a equipa de saúde responsável pelo seu acompanhamento clínico.

Nutricionista renal · Ordem dos Nutricionistas n.º 0067N
Doutorada em Nutrição Renal pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, com mais de 17 anos de experiência clínica em nefrologia. Professora convidada na FMUL e na Egas Moniz School of Health & Science.
