Por Cristina Garagarza, nutricionista clínica especializada em nutrição renal, doutorada em Nutrição pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Já alguma vez leste um artigo a dizer que devias comer mais leguminosas para proteger os rins, e no dia seguinte leste outro a dizer que devias evitar leguminosas porque têm muito potássio? Se tens a creatinina e o potássio altos ao mesmo tempo, este tipo de contradição não é imaginação tua. É um dos cenários mais complicados de gerir na nutrição renal, e quase ninguém explica porquê.
Como nutricionista especializada em saúde renal, é uma das situações que mais vejo gerar confusão em consulta. Vamos destrinçar o problema.
Duas prioridades que parecem lutar entre si
Quando a creatinina está alta, o foco habitual é ajustar a quantidade e a qualidade da proteína, para reduzir a carga de resíduos que os rins têm de filtrar. Até aqui, tudo bem.
O problema aparece quando o potássio também está elevado. Muitas das fontes de proteína consideradas «mais saudáveis» ou «mais sustentáveis», como leguminosas, frutos secos e alguns cereais integrais, são também das mais ricas em potássio. A mesma escolha que parece resolver um problema pode agravar o outro.
É por isso que não existe uma dieta única para «problemas renais» em geral. Quando dois valores exigem atenção em simultâneo, as prioridades têm de ser cruzadas, não aplicadas uma a seguir à outra. Já expliquei em detalhe como interpretar estes valores nas tuas análises; aqui o foco é o que fazer no prato quando os dois aparecem alterados ao mesmo tempo.
Porque a mesma fonte de proteína pode ser solução e problema
Nem todas as proteínas têm o mesmo perfil de potássio, e essa é a chave para desbloquear este aparente impasse.
De forma geral, proteínas de origem animal como o peixe, o frango ou o ovo tendem a ter um teor de potássio mais controlável do que leguminosas secas, frutos secos ou alguns substitutos vegetais processados. Isto não significa que as leguminosas estejam proibidas, significa que a quantidade, a frequência e a forma de preparação passam a ser decisivas.
Também vale lembrar que os laticínios são uma fonte de proteína frequentemente esquecida nesta equação, e podem ter um impacto relevante tanto no fósforo como no potássio, dependendo da quantidade consumida.
Não existe aqui uma lista fixa de «sim» e «não». O que existe é um equilíbrio que depende dos teus valores concretos, do estádio da doença e do resto da tua alimentação, e é exatamente isso que se define numa consulta com análises em mãos.
Técnicas de cozinha que fazem a diferença no potássio
Uma parte do potássio dos alimentos, sobretudo em tubérculos e alguns vegetais, pode ser reduzida antes mesmo de chegar ao prato. Duas técnicas fazem a maior diferença.
O remolho consiste em cortar o alimento em pedaços pequenos e deixá-lo de molho em água abundante durante algumas horas, trocando a água a meio do processo. Como o potássio é solúvel em água, uma parte significativa dissolve-se e fica na água, não no alimento.
A dupla cocção vai um passo mais além. Depois de cortado, o alimento é cozido numa primeira água, que se deita fora, e depois cozido de novo numa água nova. Este processo reduz ainda mais o potássio residual, especialmente em batata, cenoura ou abóbora.
Nenhuma destas técnicas elimina o potássio por completo, e por isso não substituem o acompanhamento profissional quando os valores estão significativamente alterados, mas fazem uma diferença real no dia a dia de quem precisa de conciliar proteína controlada com potássio reduzido.
Como organizar o prato quando os dois valores estão elevados
Em vez de pensar em listas de alimentos proibidos, ajuda mais pensar em três prioridades ao mesmo tempo.
Primeiro, a qualidade e a quantidade da proteína, escolhendo fontes que se adaptem ao teu caso e distribuindo-a ao longo do dia em vez de a concentrar numa única refeição. Segundo, a preparação dos vegetais e tubérculos com técnicas que reduzam o potássio, sempre que estes fazem parte habitual da tua alimentação. Terceiro, e talvez o mais importante, evitar alimentos ultraprocessados, que costumam conter aditivos de fósforo e potássio muito mais difíceis de controlar do que o potássio natural dos alimentos frescos.
É esta combinação, e não uma restrição isolada, que costuma trazer melhores resultados quando dois marcadores precisam de atenção ao mesmo tempo.
Porque a tua dieta não pode ser igual à de outra pessoa com o mesmo problema
Duas pessoas com creatinina e potássio igualmente elevados podem precisar de planos completamente diferentes. A medicação pesa muito nesta equação, alguns diuréticos e anti-hipertensores alteram diretamente os níveis de potássio no sangue, para cima ou para baixo. O estádio da doença renal, a presença de diabetes e o teu padrão alimentar habitual completam o resto da equação.
Por isso, uma recomendação genérica encontrada online pode ser perfeitamente adequada para outra pessoa e desadequada para ti.
Perguntas frequentes
Posso comer leguminosas se tenho a creatinina e o potássio altos? Na maioria dos casos sim, mas em quantidades e frequências ajustadas, e idealmente com técnicas de preparação que reduzam o potássio. A eliminação total raramente é necessária.
A fruta está completamente proibida? Não. Algumas frutas têm um teor de potássio naturalmente mais baixo do que outras. A questão não é eliminar a fruta, é escolher com critério e ajustar as porções ao teu caso.
Ferver os alimentos é sempre suficiente para reduzir o potássio? Ajuda, mas não resolve tudo. Em valores muito elevados, a preparação culinária é um complemento, não um substituto do ajuste global da dieta feito com acompanhamento profissional.
A creatinina e o potássio sobem sempre juntos? Não necessariamente. Podem subir por mecanismos diferentes e em momentos diferentes, e é por isso que interpretar os dois valores em conjunto, e não isoladamente, é tão importante.
Se a tua última análise trouxe estes dois valores alterados ao mesmo tempo, não precisas de escolher entre cuidar dos rins e comer com prazer. Precisas de um plano que olhe para os dois números em conjunto, ajustado à tua realidade e às tuas análises. É exatamente esse o trabalho que faço em consulta, e podes agendar uma chamada gratuita de 15 minutos para começarmos por aí.
Cristina Garagarza · Nutricionista especialista em nutrição renal · Nº 0067N
Este artigo tem carácter exclusivamente informativo e não substitui a consulta médica ou de nutrição clínica. Qualquer alteração na dieta ou no programa de exercício deve ser discutida com a equipa de saúde responsável pelo seu acompanhamento clínico.
